Nadia Greco

IIIIIIIIIIViagens

Minas Gerais

Antônio Francisco Lisboa - o Aleijadinho

O trajeto das cidades históricas são um passeio imperdível para os brasileiros que amam seu país, um pedaço da história que nossos filhos não podem deixar de conhecer. Este brasileiro genial é chamado de "aleijadinho" devido á uma deformidade causada por uma doença aos 50 anos, e também é o maior artista do séc. XVIII. Numa perfeita combinação de barroco e rococó (entre o clássico e o gótico) criou obras dignas de um rei e com certeza foi inspiração para muitos outros artistas e poetas. Vivendo num ambiente de letras, artes, política e muito ouro, venceu o preconceito racial e foi um artista disputadíssimo.

Ao entrar nas igrejas um forte cheiro de mofo invade nosso nariz, devido ao hábito que tinham de enterrar os mortos dentro de igrejas, pessoas que pertenciam á "irmandades" e seus familiares. Cada "irmandade" tinha seu altar em particular dentro das igrejas , e aos negros não era permitido pisar onde os brancos pisavam dentro das igrejas. Milhares de homens se movimentavam entre minas úmidas e geladas, metros e metros dentro da terra e do solo, para cavarem os veios de ouro preto. Ainda existem várias dessas aberturas de minas pela cidade.

Elementos da maçonaria são abundantes nas igrejas. Belíssimas pinturas nos tetos e nas paredes fazem de cada detalhe artístico uma viagem ao passado do Brasil Colonial, uma época onde as mulheres não botavam seus narizes fora de casa, um período de forasteiros em busca de riquezas, capangas, escravos e homens ricos. As escravas eram as responsáveis por todos os afazeres domésticos, desde limpar as privadas dos senhores (privadas que eram muitas vezes buracos nas paredes ou em salas separadas) e cuidar da toalete da sinhá. Os negros mais fortes e bem apessoados carregavam seus senhores e sinhás pelas ladeiras íngremes , para cima e para baixo... Provável o nível de prostituição fosse alto e o número de doenças relativas á ela idem. Quando morriam, os negros eram jogados num rio , muitas vezes após terem apanhado por horas a fio no tronco, (para servirem de exemplo, colocavam o tronco numa praça principal) ou após terem sido enforcados.

Nos museus encontram-se documentos de alforria e cópias de documentos onde a rainha pronuncia a execução da sentença aos inconfidentes, que foram extraditados. Nesse mundo de ricos (que escondiam seu ouro nos famosos "santos de pau oco" para não entregarem-no á coroa de Portugal) e submundo de escravos, encontrava-se lugar para coisas tão belas como as delicadas peças bordadas á mão numa "paciência de santas", durante meses, pelas entediadas sinhás, que nada tinham a fazer senão seguir seu destino casando-se com os fazendeiros e unindo fortunas, acabando muitas vezes mortas nos partos e seus filhos entregues aos cuidados das mães negras, aos vinte anos já estavam envelhecidas e sem dentes. Usando a numerologia observamos um pouco a alma deste gênio: a soma das suas vogais, (o que expressa o que vai no nosso íntimo), é 54/9, a soma das consoantes ( como aparentamos aos outros) soma 45/9, ambas as somas advêm do número 4 e 5 , números que demonstram seu espírito trabalhador, organizado (4), livre e criativo (5), resultando no 9, que é o número que chama ao trabalho para o coletivo, e traz popularidade para a pessoa, onde a lição é aliar seus talentos natos com o trabalho altruísta, buscar a perfeição no que faz. No caso dele a soma de vogais e consoantes será um 99/9, e com este excesso de 9s , Aleijadinho sentia-se livre para ir além dos limites estabelecidos para sua época e á vontade para aplicar seus talentos á nível da perfeição encontrando o reconhecimento á nível mundial.

Algum tempo atrás (1993) morava num sítio na minha cidade. Certa noite entre o sonho e o acordar, fui até a porta e observei uma caravana de negros escravos passando pela minha porta, todos de roupa clara e atravessando uma longa estrada de terra que cortava o sítio de ponta a ponta (esta estrada atualmente existe só uma parte), um deles se deslocou do grupo e caminhou em minha direção, ao chegar bem próximo e quase me tocar, despertei. Recentemente (em 2003), um movimento em Itatiba está recuperando uma parte importante da história da cidade, uma região que foi um Quilombo. Talvez não coincidentemente esta estrada que me referi dirige-se á esta região do Quilombo.

Mistérios... 

Tristeza do Jeca
(música de Angelino de Oliveira)

Nestes versos tão singelos
Minha bela, meu amor,
Pra você quero contar
O meu sofrer, a minha dor.

Eu sou como o sabiá 
Quando canta é só tristeza 
Desde o galho onde ele está.

Esta música reflete toda a beleza e a simplicidade, a tristeza e a poesia do nosso povo do campo, pobre e simples, que trabalha para comer, e não conhece shoppings nem socialites.

Será que o Jeca está em extinção? A 9 de abril de 1912 nascia Amácio Mazzaropi, que imortalizou o personagem Jeca Tatu {uma adaptação do conto Jeca Tatuzinho de Monteiro Lobato - 1959}. O filme "Tristeza do Jeca", o próprio Mazzaropi produziu e interpretou sob a direção de Milton Amaral em 1961. A obra de Mazzaropi tem sido revista pelos críticos. Com a total aprovação do povo que lotava seus filmes, ele não necessita de críticos, Mazzaropi é como Monteiro Lobato sua obra fala por si mesmo, é um monumento á nossa brasileirice, ou á nossa caipirice. Porém sua obra é colocada de lado nos livros, longe da memória do povo, como tantas coisas boas neste país. O caipira de Monteiro Lobato tinha uma função didática, Mazzaropi acrescentou á ele o seu modo espontâneo e engraçado de falar de assuntos sérios, mais os clichês do homem do campo - o caipira do sudeste - o homem simples, conformado, valente se necessário e sempre honesto. 


Nesta viola
Canto e gemo de verdade
Cada toada
Representa uma saudade.

Eu nasci naquela serra
Num ranchinho á beira chão
Todo cheio de buracos
Onde a lua faz clarão

Quando chega a madrugada 
Lá no mato a passarada
Principia um barulhão
  
E a passarada tão pouco respeitada, vergonhosamente contrabandeada, ainda insiste em fazer seu barullhão pra saudar a aurora, o ranchinho ainda é beira chão, sem forro.

Em maio temos no Interior (e em SP-capital) inúmeras festas italianas comemorando várias colheitas (e Santos padroeiros) e em junho as típicas festas juninas que se estendem até julho. E tome São Pedro, Santo Antonio, São João e muito vinho quente, quentão e maçã do amor. Mas as pessoas não se vestem mais de caipira nas festas juninas como faziam há 20 anos atrás, as belas festas na praça com as quadrilhas e muita dança nos quintais dos sítios e fazendas. O caipira foi substituído pelo cowboy chique do shopping, caipira de roupa complicada e perfumado!. Mas o caipira do interior continua o mesmo, anda com seu canivete na cintura, canivete da paz, porquê só serve para fazer pequenos consertos, cortar, chupar cana e pescaria. Falam enrolado (é, eles tem mesmo um dialeto próprio...), os cavalos na cidade brigando com os carros por um espaço, as charretes já vão sendo substituídas pelas grandes camionetes importadas ou não. O caipira pobre agora vai de ônibus. Por vezes o trator ainda passa carregando a turma do sítio que vem para a cidade fazer compras. O cachorro sempre fiel vem decidido, correndo, atrás do cavalo, do carro, do trator, enfim do dono... que vai com a viola na mão.

E cachorro que é cachorro de interior dorme no meio da rua, atrapalhando o tráfego e não se discute! Mas até ele está em extinção, o simpático vira-lata foi trocado pelo antipático pit-bull. 
No seu artigo "Um mapa para São Paulo" (publicado na Constelar) a astróloga Bárbara Abramo apresenta o mapa de SP com ascendente Áries, câncer na 4 e uma lua de 8 em escorpião. E o paulista da capital também já foi um caipira, seja nos primeiros tempos, nas casas de pau a pique, seja depois com a evasão dos imigrantes das lavouras para trabalhar na cidade (só que italiano não era assim, caipira, era camponês, se tornou caipira ao chegar ao Brasil, teve jeito não). E é sem surpresa que vemos todos os finais de semana o paulista num cronometrado êxodo se deslocar da capital para o interior formando uma curiosa avenida na auto-estrada, atrás do colo de mãe (câncer na 4) que o interior ainda tem; atrás de se reciclar (lua na 8), atrás do céu estrelado e da lua romântica do caipira, do cheiro do mato depois da chuva, da tranqüilidade interiorana. Viver no interior é ter um colo de mãe á disposição, é dar um pulo na casa dos amigos para um cafezinho (é ali mesmo, um tirico), é ir á missa aos domingos, as beatas, o padre que conhece a todos; (é a roupa de domingo para a missa!), os coroinhas, a quermesse, o almoço com a família. Depois ir comer fruta no pé, se lambuzar de caqui, mexerica, manga e a cada estação esperar uma fruta nova. Tomar banho de rio ou não fazer nada afinal que troço é este sô, internet? Ter e morrer de muita preguiça, ver o sol desaparecer numa lindeza de doer lá no horizonte, e dizer: graças á deus somos jecas! Bom, acabou o dia, é meia volta para a cidade grande.

Vida longa ao Jeca!


Nesta viola
Canto e gemo de verdade
Cada toada
Representa uma saudade

Lá no mato tudo é triste
Desde o jeito de cantar
Sertanejo quando canta
Tem vontade de chorar

E o chorô que vai caindo 
Devagar vai se sumindo 
Como as águas
Vão pro mar 

Nesta viola eu canto e gemo de verdade, cada toada representa uma saudade!

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ReinaldoFerreira designer
reinaldo@dglnet.com.br